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O Bicho Papão das Lesões Musculares em Modalidades Coletivas

5 Agosto, 2018

Dos verdadeiros motivos da lesão ao treino.

Numa altura em que se iniciam os campeonatos oficiais, na Europa, e em que os jogadores são expostos a cargas com dinâmicas diferentes (a competição), é importante refletir um pouquinho sobre o papão de todas as equipas técnicas e dos departamentos médicos: as lesões musculares. Mas será que olhamos para o problema da forma mais correta? Será que a forma como olhamos para o problema é justificada pelo maior, ou menor, conhecimento epidemiológico deste tipo de lesões? Em opinião, parece-nos que não estamos a olhar para o problema pelo lado mais correto e, por isso, a nossa intervenção também não é a mais correta. Por outro lado, percebemos que grande parte do problema, também, se deve ao facto de nos continuarmos a apoiar no mito (no “alguém falou nisto”) e nas influências das intervenções da moda, desconhecendo muitas das vezes todo o fenómeno e todas as causas. O estudo de Ekstrand (2016), realizado com base em recolhas a partir de 2001, tem mostrado um aumento de 2,3% e 4% ao ano, nas lesões dos músculos posteriores da coxa, relacionadas com o jogo e com o treino, respetivamente.

Concretamente, no jogo, as lesões musculares tendem a aparecer maioritariamente nos períodos de maior fadiga. A confirmar este argumento, Ekstrand (2011) concluiu que as lesões musculares acontecem preferencialmente durante os últimos 15 minutos da primeira parte e nos últimos 30 minutos da segunda parte.

Posto isto, percebemos que um dos grandes fatores justificativos das lesões musculares é efetivamente a fadiga e, por consequência, a condição física dos atletas. Watson e colaboradores (2017), concluíram que a capacidade aeróbia e quantidade de massa muscular, dos atletas, são fatores com grande influência no risco lesão. Naturalmente, são apontadas outras variáveis modificáveis como influenciadoras nas lesões musculares. No caso concreto das lesões dos posteriores da coxa, Liu e colaboradores (2012) concluiaram, com base numa revisão sistemática, que o encurtamento muscular, o aquecimento e a fadiga são os únicos fatores de risco com evidência, efetivamente, confirmada. Todos os outros, como os desequilíbrios musculares, a tensão muscular aumentada ou patologias da coluna vertebral, apresentam falta de evidência científica ou apresentam dados controversos. Da mesma forma, considera que a biomecânica muscular, a raça e o historial de lesão são fatores não modificáveis de relevo no risco da lesão. Neste sentido, do ponto de vista operacional, vários têm sido os estudos a propor protocolos de redução do risco de lesão com variadas abordagens. As modas dos últimos anos, tem apontado ao “treino funcional”, à “reeducação/ correção postural”, como suprassumos da causa. O facto é que, segundo a revisão sistemática e meta-análise de Lauersen e colaboradores (2013), o treino da força apresenta o maior efeito na redução do risco de lesão, quando comparado com a influência do treino da flexibilidade, da propriocepção e de abordagens mistas. Da mesma forma, Malone e colaboradores (2016), concluíram que o desenvolvimento da força, da habilidade de realizar sprints repetidos e da velocidade, estão intimamente associados a uma maior tolerância para as cargas elevadas de treino e à redução do risco de lesão, em atletas de desportos coletivos. Outra moda, têm sido os equipamentos isoinerciais e as abordagens de sobrecarga excêntrica. Serão a “última bolacha do pacote”? Na nossa opinião, a resposta é claramente que não. É, também, certo que sendo os músculos posteriores da categoria dos músculos tónicos, a sua tendência natural é para o encurtamento. Desta forma, no desenho de programas de treino da força, se esta categorização não for tida em conta, poderemos promover, ainda mais, o encurtamento de determinados músculos. Sendo este um fator de risco conhecido, em vez de melhorarmos o problema, faremos exatamente o contrário. Os modelos isoinerciais e de sobrecarga excêntrica apareceram com base na premissa que o trabalho excêntrico promove dano muscular com grande relevância e promove ainda a flexibilidade dos músculos trabalhados. A revisão sistemática de O’Sullivan e colaboradores (2014) confirmou a tese de que o treino excêntrico promove a realização de exercícios com uma ROM significativa e, por consequência, apresenta ser um método efetivo para aumentar a flexibilidade dos músculos dos membros inferiores. Assim, se é facto que a utilização de metodologias excêntricas poderá ser benéfico, como constatado anteriormente, mais importante é ter-se em atenção a realização de cada exercício. Com a aplicação de exercícios com sobrecarga maioritariamente concêntricas ou excêntricas, a realização de exercícios com amplitudes totais é fundamental. Numa perspectiva mais macro do treino, o pleno controlo das variáveis internas e externas parecem ser uma forma efetiva de predição do risco

de lesões de stress. Nesta área de investigação, Tim Gabbett é uma das grandes referências.

Gabbett (2016) considerou que uma prescrição adequada do treino deverá aumentar a condição física dos atletas, o que, per sí, se torna uma proteção contra as lesões, possibilita os atletas de expressarem melhores outputs de performance e uma maior resiliência competitiva. O mesmo autor, abordou alguns conceitos que ajudam a interpretar o risco de lesão de uma forma prática e com uma grande acessibilidade em todos os contextos competitivos. Como se pode ver nas imagens em baixo, são consideras as diferenças entre as cargas semanais (change) e o rácio carga aguda : carga crónica como variáveis com uma relação forte à predição do risco de lesão. Com base no change, sabemos que um aumento na carga aguda superior a 10%, de uma semana para a outra, aumentará exponencialmente o risco de lesão. Da mesma forma, interpretando a carga de treino, o rácio carga aguda : carga crónica deverá situar-se entre 0,8 e 1,3. Desta forma, abaixo de 0,8 o atleta poderá entrar num estado de undertraining e acima de 1,3, o atleta poderá entrar num estado de overtraining. Em ambos os fenómenos, o risco de lesão aumenta exponencialmente.

Da mesma forma, Foster (1997) considerou a monotonia e o strain como conceitos importantes na deteção de síndromes de overtraining e, consequentemente, da predição do risco de lesão. Concretamente, considerou que spikes, na monotonia e no strain, superiores a 2%, estão associados a um risco de lesão superior a 77%. Com base nestes conceitos é, relativamente, fácil construir um meio visual e que ajude os técnicos a tomar decisões mais fundamentadas.

A imagem em baixo, foi retirada de uma plataforma criada no presente ano, e que nos ajuda a interpretar todas estas variáveis de forma bastante acessível e organizada. Desta forma, é possível, juntamente com outros meios, tomar decisões fundamentadas e, assim, correr menos riscos no dia-a-dia.

Esta interpretação pode ser realizada com base em variáveis subjetivas, com base na interpretação de dados de GPS (Distâncias percorridas, acelerações…) ou com base na frequência cardíaca. Podemos também interpretar variáveis de carga externa (distâncias percorridas, por exemplo) multiplicadas por variáveis de carga interna (perceção do esforço, por exemplo). Para nós, as variáveis subjectivas e perceptivas dos atletas são o meio menos falível para a tomada de decisão. Assim, certo é que, quanto mais tivermos domínio sobre esta temática e uma maior capacidade para a operacionalização dos planos de ação, mais próximos estaremos do sucesso. Ainda assim, seremos muito ingénuos se pensarmos que conseguiremos estar uma época inteira sem ter lesões musculares, mesmo tendo um plano de ação perfeito. A partir do momento em que este fenómeno depende de fatores não modificáveis, como enunciados anteriormente, a luta deixa de ser equilibrada. No entanto, é evidente que a frequência e a gravidade das lesões e o consequente tempo de paragem vão ser muito menores.